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Quinta-feira, 21 DE Agosto 2014

O complexo desportivo do Jamor é um mundo fervilhante pela manhã. O cheiro a relva cortada paira no ar, os pequenos caminhos são trilhados por bicicletas e pessoas a correr – aqui, o sedentarismo é crime. Pelos sucessivos campos de treino assiste-se a “peladinhas” familiares, miúdos que se juntaram para um joguinho, grupos de amigos num disputadíssimo “solteiros contra casados”.

 

Porém, ao chegar-se ao campo número 3, mesmo ao lado do Centro de Alto Rendimento Moniz Pereira, há uma aura de profissionalismo. Um grupo de futebolistas junta-se no centro do terreno a ouvir uma palestra do treinador. Os semblantes são carregados, próprios de quem não está ali para brincar. Dir-se-ia que se está na véspera de um importante embate. É mais do que isso. Ali joga-se um futuro profissional, para quem o futebol é, efectivamente, “mais do que uma questão de vida ou de morte”.

 

Todos os anos, durante um mês da pré-época, o Sindicato dos Jogadores Profissionais de Futebol (SJPF) organiza o Estágio do Jogador, durante o qual os atletas sem clube podem treinar regularmente, enquanto procuram uma nova equipa. À iniciativa, já na sua 12.ª edição, acorrem os mais variados casos, diz José Carlos, ex-jogador que passou por clubes como o Benfica e o Vitória de Guimarães, que é actualmente vice-presidente do SJPF. “Temos jogadores jovens, [outros] em fim de carreira, que depois dos 30 anos já são velhos e sentem dificuldade, mas que ainda têm qualidade. Temos alguns a recuperar de lesões. Alguns que foram para o estrangeiro e têm dificuldade em voltar porque encontram um mercado completamente diferente e não conseguem encaixar-se.”

 

Um olhar atento ao treino poderia dispensar a enumeração dada por José Carlos. Colado à linha lateral vemos um futebolista a fazer um cruzamento após um sprint custoso. “Epá, isso foi cruzamento de Primeira Liga!”, grita alguém. Responde o jogador, quase como se estivesse a falar para si próprio: “Ainda cá está…”

 

À nossa frente está Miguel, lateral direito que passou pelo Benfica e pelo Valência. Aquele cruzamento “de Primeira Liga” esconde uma carreira de mais de uma década ao mais alto nível, de 59 internacionalizações A e presenças em dois Europeus e dois Mundiais.

 

O tal cruzamento ia dirigido a Lourenço, preparado para fazer o que mais gosta – o golo. Lourenço foi um dos primeiros meninos-prodígio da Academia de Alcochete do Sporting, que começou a dar nas vistas por alturas do novo milénio. Empréstimos sucessivos – Belenenses e União de Leiria – levaram-no a procurar o sucesso no estrangeiro. Rumava ao Panionios da Grécia em 2006, sem saber da crise económica que se iria abater sobre o país dali a poucos anos. A fase descendente trouxe-o de regresso a Portugal e, na última época, esteve na Roménia, ao serviço do Corona Brasov. Uma lesão prolongada pô-lo sem clube.

 

Mas Lourenço vê o seu golo negado. Na baliza está um miúdo de 20 anos e 1,97. A estatística figura no bilhete de identidade de Samir, mas não encontra correspondência com a realidade, garante: “O documento diz 1,97, mas está mal, já tenho 1,99.” Apesar da tenra idade, Samir Queni já tem uma carreira de idas e regressos, desentendimentos com empresários e aventuras nas ilhas britânicas.

 

Um simples cruzamento conta a história destes homens, privados daquilo que mais gostam de fazer, mas que se recusam a procurar alternativas. Em conversa com o PÚBLICO, todos concordam quanto ao destino a que não podem fugir: jogar à bola e fazer disso vida.

 

Miguel, que atrás de si tem uma carreira recheada, vê com naturalidade a presença no Estágio do SJPF. “É uma situação normal, em Espanha vemos jogadores que num ano estão num Espanhol ou num Villarreal e depois passam dois meses a treinar com o sindicato para manterem a forma”, diz-nos. Ao contrário de outros colegas, o ex-jogador do Valência tem a sua situação resolvida, com algumas propostas em carteira. Mas depois de uma má experiência no Wigan de Inglaterra, o fim da carreira pareceu-lhe o passo seguinte.

 

Não conseguiu. “Já não fazia isto há algum tempo e já tinha saudades”, confessa. Depois de ter recebido alguns convites, o futebolista de 34 anos decidiu juntar-se à iniciativa do sindicato: “Estar a treinar sozinho não é a mesma coisa”, justifica. Recorrer ao estágio não é “vergonha”, diz Miguel, contrariando a narrativa do jogador caído em desgraça. “Não estamos aqui a fazer mal a ninguém, estamos a fazer bem a nós próprios, a manter a forma, a fazer bem à nossa saúde.”

 

Do estágio, que tinha iniciado há escassos quatro dias, Miguel já retirou algo de uma simplicidade desarmante: “Sinto aquele cansaço que já não sentia há muito tempo, um cansaço bom.”

 

Com o seu futuro resolvido está também outro velho conhecido dos relvados nacionais. Miguel Garcia, que passou pelo Sporting e pelo Sporting Braga, participa pela terceira vez no estágio do SJPF. Aos 31 anos, o defesa terminou contrato com o Maiorca, mas sente que ainda pode jogar mais tempo.

 

A próxima paragem deste alentejano é, no mínimo, exótica. As cores que vai defender são as do Northeast United, clube indiano que vai competir na primeira edição da Indian Super League, um campeonato criado de raiz para tornar o futebol num desporto popular no segundo país mais populoso do planeta. “Agrada-me porque gosto de viajar, tenho espírito aventureiro e gosto de conhecer novas culturas”, explica.

 

Apesar de já ter encontrado uma solução, Garcia tem consciência de que há uma pressão latente entre os seus colegas que ainda não definiram o futuro. “No primeiro dia chegam aqui trinta jogadores e no fim já só estão 15. É complicado, porque isto é a nossa vida e o que gostamos de fazer é jogar futebol. É com naturalidade que aparece alguma pressão e algum desalento”, admite. A chave é “manter a calma”. “Há-de aparecer alguma coisa, pode não ser o que queremos, mas há-de aparecer.” A partir desse momento, o objectivo é claro: “Fazer uma boa época e tentar não voltar aqui.”

 

José Carlos consegue notar essa pressão até nas caras dos atletas e “pela forma como se entregam”. “A maior parte deles, gente que era profissional, sente que com a idade que tem aceita propostas para o Campeonato Nacional de Séniores (CNS)”, observa. São “jogadores que estavam no estrangeiro, têm qualidade e querem regressar a Portugal”, mas a II Liga, que seria um bom destino, “é muito difícil de entrar” actualmente. Depois desses, há ainda casos mais dramáticos, conta o dirigente. “Há jogadores que nem têm dinheiro para vir aos treinos.”

 

Há um desalento na cara de Lourenço quando se senta para falar com o PÚBLICO numa esplanada no Jamor. Ainda não tem propostas, mas não perde a esperança. O avançado de 31 anos tem apenas uma certeza: “Estou preparado para ficar cá, estou preparado para sair, não estou preparado para deixar de jogar”, diz com firmeza.

 

Lourenço foi um dos primeiros jogadores saídos da famosa academia do Sporting. Era um avançado prometedor que dava nas vistas nas equipas de formação dos “leões” e rapidamente chegou às selecções jovens. O salto para a equipa principal estava mesmo ali. Mas como muitos outros essa oportunidade tardava em chegar. Entrou na espiral dos empréstimos sucessivos e deixou Alvalade. Mais de uma década depois, pouco mais se soube do avançado.

 

“Nunca ninguém quando está lá em cima pensa que as coisas possam regredir e vir parar cá abaixo”, diz-nos. O Corona Brasov foi o último emblema que representou e a experiência romena até estava a correr bem. “Infelizmente tive uma lesão e não consegui recuperar.” Voltou a Portugal no final da última época e agora procura apenas uma oportunidade. “Desde que seja um desafio que me agrade, estou pronto a agarrá-lo e a corresponder”, afirma.

 

Mais de uma década separa Lourenço de Namir, o tal guarda-redes dos dois metros, mas, tal como o avançado, também o jovem procura apenas uma oportunidade. No seu caso sobretudo para aprender. Apesar da sua juventude, a carreira de Namir já tem bastante que contar.

 

A baliza não foi o seu primeiro amor. “Quando era miúdo tive aquela coisa de ser ponta-de-lança e marcar golos, mas quando jogava na rua com os mais crescidos eles chamavam-me para a baliza”, conta-nos. Começou a jogar futsal num clube perto de casa, em Loures, e daí foi para o Ponte de Frielas para ter a primeira experiência fora do pavilhão. Foi no Casa Pia que fez a maior parte da formação e acabou por sair ainda em idade de júnior.

 

Foi pela mão de um empresário guineense que Namir conheceu as dificuldades do futebol profissional. Fez um treino de captação no Rio Ave, gostaram dele e estava preparado para assinar. “Uns quantos problemas fizeram com que eu não ficasse lá e nem me explicaram bem”, recorda. O mesmo empresário pô-lo a treinar no Feirense, mas passado pouco tempo perdeu-lhe o rasto. “Tentei ligar e ele não atendia.”

 

Ficou de “pé atrás” e não teve mais contactos com empresários desde então. “Preferi só treinar, fazer a minha vidinha e depois tentar arranjar a pessoa certa.” É então que vai para o País de Gales, país para onde a mãe já tinha emigrado. Durante um ano joga na equipa sub-19 do Camarthen Town, da Primeira Liga. Mudou depois para uma equipa do terceiro escalão, onde agarra a titularidade, mas decide voltar. “Notei uma grande diferença, aqui treinava quatro vezes por semana, lá treinam uma vez, é mais amador”, justifica.

 

Agora procura um tal clube onde possa evoluir e continuar a sua carreira, pois nunca pensou em fazer vida noutra profissão. Em poucos anos viu de perto quão difícil pode ser esta vida, mas continua esperançado. “É como se costuma dizer: se até no lixão nasce flor, vou tentar até à última.”

 

 

 

Em: Jornal O Público

 

 

 

publicado por Pedro Miguel Branco às 16:02
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